Familia Cotrim

Notas


Maria José Cotrim Garaude

Com seu carisma, ela foi uma presença marcante na ECA. Professora e poetisa, teve grande atuação política durante o regime militar. Maria José Cotrim Garaude Gianotti, ou apenas Lupe Cotrim, nasceu em São Paulo, no ano de 1933. Carlos Drummond de Andrade a descreveu assim: "Traz Pernambuco, Bahia, Espanha e França no sangue, na cabeleira loura, nos olhos claros, no tipo é só francesa, na simpatia é brasileiríssima."
Formada em Filosofia na USP e em Biblioteconomia no Sedes Sapientiae, começou a escrever poesias na adolescência. Sua obra é marcada pelo lirismo e reflexão. Até a sua morte, em 1970, aos 37 anos, vítima de um câncer de mama, publicou sete livros: Monólogos de Afeto (1956), Raiz Comum (1959), Entre a Flor e o Tempo (1961), O Poeta e o Mundo (1962), Cânticos da Terra (1963), Inventos (1967) e Poemas ao Outro (1970).

Convidada, em 1967, a ministrar aulas na ECA, logo conquistou os alunos com seu jeito dinâmico e sensível, sempre aberto ao debate. Em 1969, ao receber o Prêmio Governador do Estado por Poemas ao Outro, teve uma última homenagem de seus colegas professores. Ao morrer, em 1970, os alunos da ECA deram seu nome ao Centro Acadêmico.


Abaixo, um de seus muitos poemas,
extraído do livro Encontro,
Editora Brasiliense, 1984.

Hino dos Comedidos

Não me agradam esses homens
bem fracionados no tempo,
cedendo-se amavelmente
em todas ocasiões
e mais também não me agradam
os partidários tão vários,
de toda moderação.
Vou passando bem distante
desses homens comedidos
desses homens moderados. -

Antônio guarda seu vinho
muito mais de vinte anos
para bebê-lo mais velho;
Clara não estréia o vestido
quer outra oportunidade;

os noivos em castidade
bem além de doze anos
ainda apregoam o amor.

Os homens de ferro hoje
só sabem anunciar
uma mensagem de espera:
Aguarda a felicidade,
vê o momento oportuno,
não penses nunca em amor
nem sejas tão ansioso,
resiste à melhor viagem
desconhece a emoção. -

O hino dos comedidos
de todos bem fracionados
a humanidade invadiu.
Desejam oportuníssimos
sempre expelindo relógios,
aguardam os melhores instantes
subdivididos em prazos,
doutrinam sincronizados
sofrendo convencionais,
apenas grandes tristezas
creditadas nos jornais. -

Eu? Eu já sou diferente.
Não sei viver minha vida
entoada nesse hino,
esterilizada em prazos
de regras universais.
Não me situo na espera
e por profissão de fé
acredito em circunstância,
acredito em vida intensa,
acredito que se sofra,
mesmo muito, por amor.

Adeus homens moderados,
adeus que sou diferente.
Compreendo a mulher que rasga
as vestes em grande dor
e sinto imensa ternura
pelo homem desesperado.

Lupe Cotrim
1933-1970